Neurologista - Dr. Willian Rezende

Lapsos de memória não são apenas esquecimentos?


Quem, durante uma conversa com um idoso, já não presenciou “uma luta mental” para que ele chegasse a uma palavra desejada ou ao nome de alguém próximo e querido? “Podemos estar falando de lapsos de memória, que podem ser simples esquecimentos e afetar pessoas de todas as idades ou de uma condição neurológica chamada de transtorno cognitivo leve”, explica o neurologista, Willian Rezende do Carmo, CRM-SP 160.140.

“Além da dificuldade de recordar algumas palavras e de lembrar o nome de algumas pessoas, são, muitas vezes comuns, a dificuldade para lembrar compromissos, a dificuldade para pagar contas e a impressão de perda de timing, no meio de uma conversa (‘sobre o que mesmo eu estava falando?’) ”, exemplifica o médico.

Embora não seja tão grave como a doença de Alzheimer ou outras formas de demência, o transtorno cognitivo leve é frequentemente um sinal de transtorno mental. “De acordo com os sete estágios para o diagnóstico da doença de Alzheimer, os lapsos de memória estão situados no grau 3, onde há uma condição de déficits sutis na função cognitiva que, todavia, permite que a maioria das pessoas viva de forma independente e participe de atividades sociais normalmente”, alerta Willian do Carmo.

Estudos da Clínica Mayo classificam o comprometimento cognitivo leve como “um estado intermediário da função cognitiva,” situado entre as mudanças observadas normalmente com a idade e os déficits graves associadas com a demência.

Mudanças advindas do envelhecimento 

Enquanto a maioria das pessoas experimenta um declínio cognitivo gradual, à medida em que envelhecem (apenas um em 100 envelhece sem perda cognitiva), outros passam por mudanças mais radicais na sua função cognitiva. Segundo artigo publicado no The New England Journal of Medicine, o comprometimento cognitivo leve foi encontrado em 10-20% das pessoas com mais de 65 anos.

Segundo Ronald Petersen, autor do artigo, há dois “subtipos” do transtorno cognitivo leve e cada uma destas condições têm trajetórias diferentes. O tipo mais comum está associado a problemas de memória significativos, e dentro de 5-10 anos, geralmente progride – mas nem sempre – para a doença de Alzheimer.

Esquecimentos sutis, como o extravio de objetos e ter dificuldade para lembrar algumas palavras, podem afetar pessoas de idade avançada e provavelmente compõe um quadro normal de envelhecimento. “Já a perda de memória que ocorre em pessoas com transtorno cognitivo leve é mais proeminente. Normalmente, estas pessoas começam a esquecer informações importantes, que anteriormente teriam lembrado facilmente, tais como compromissos, conversas telefônicas ou eventos recentes que normalmente lhes interessam. O esquecimento é muitas vezes óbvio para aqueles que são afetados pelo problema e para as pessoas próximas a eles, mas não para observadores casuais.”, explica o médico.

O segundo tipo de transtorno cognitivo leve está associado com dificuldades para tomar decisões, para encontrar as palavras certas, para realizar algumas tarefas e pode ser um precursor de outros tipos de demências. “Em geral, o transtorno cognitivo leve manifesta-se por cerca de sete anos, antes que comece a interferir com as atividades da vida diária do idoso”, diz Willian do Carmo.

Importância do diagnóstico correto 

A distinção entre o transtorno cognitivo leve e os efeitos do envelhecimento normal pode ser um desafio para a equipe médica que assiste o idoso. Tipicamente, os pacientes fazem testes mentais, fornecem um histórico médico completo e são verificados para condições que podem ser causas reversíveis da cognição prejudicada. “Problemas como depressão, efeitos colaterais de medicamentos, deficiência de vitamina B12 ou uma disfunção da tiroide ‘podem imitar’ os sintomas do transtorno cognitivo leve”, explica o neurologista.

“Outros exames, como uma tomografia computadorizada do cérebro, podem apontar a evidência de um tumor cerebral, de um acidente vascular cerebral ou de vasos sanguíneos, elementos que podem prejudicar seriamente a função cerebral”, complementa o médico.

Confirmado o diagnóstico do transtorno cognitivo leve, é natural que os pacientes e suas famílias desejem saber se e quão rapidamente a doença pode progredir. Em média, os pacientes perdem cerca de 10% de sua capacidade mental, a cada ano. “Alguns fatores estão associados com uma progressão mais rápida. Dentre estes estão a presença de um gene chamado APOE e4, mais comum entre os pacientes com doença de Alzheimer; um hipocampo reduzido, região do cérebro importante para a memória; e uma baixa taxa metabólica nas regiões temporal e parietal do cérebro”, afirma o neurologista Willian Rezende Do Carmo.

Segundo o médico, placas amiloides no cérebro, uma característica da doença de Alzheimer e um preditor de sua progressão, também foram encontradas na autópsia de pessoas com funções cognitivas perfeitamente normais.

Preservação da função cognitiva 

Apesar dos diversos ensaios clínicos que testaram vários medicamentos, nenhuma droga para o tratamento do transtorno cognitivo leve foi aprovada ainda. Os especialistas sugerem várias abordagens que podem retardar o declínio da função cognitiva.

Embora os estudos não mostrem que medicamentos como o donepezil e a memantina, ambos usados para tratar a doença de Alzheimer, possam mudar o curso final do comprometimento cognitivo leve, alguns especialistas defendem que eles podem ser úteis em tratamentos temporários para estabilizar os pacientes por alguns anos. “Há pessoas que pensam que estão tendo problemas de memória, mas os testes não mostram nada de definitivo. Alguns podem estar na fase 1 da doença de Alzheimer e talvez possam se beneficiar de um tratamento precoce com essas drogas”, observa o neurologista.

Visando preservar as funções cognitivas, também é importante reduzir os fatores de risco cardiovasculares – como tabagismo, colesterol elevado, pressão arterial elevada – manter o açúcar no sangue em níveis normais, minimizar o estresse (que em estudos com animais podem fazer o hipocampo encolher) e evitar as drogas anticolinérgicas, que podem interferir em substâncias químicas importantes para a memória.

“Exercícios de reabilitação cognitiva, como jogos de computador que melhoram o foco, podem ser úteis, já existem estudos demonstrando esses benefícios. Técnicas compensatórias, como tomar notas, criar mnemônicos e fazer programações estruturadas podem ser auxiliares úteis também. Mas a mais promissora de todas as formas de prevenção é o exercício físico regular, que em estudos com animais foi capaz de reduzir o acúmulo de amiloide no cérebro. Um estudo australiano em pacientes com problemas de memória mostrou que a caminhada rápida, totalizando 150 minutos por semana, melhora a função cognitiva”, acrescenta o médico.

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