Neurologista - Dr. Willian Rezende

Paciente com Alzheimer precisa manter vínculos afetivos


Eles podem esquecer rapidamente… Mas uma visita a um paciente com Alzheimer vai deixá-lo com um sentimento permanente de felicidade. Esta é a descoberta de um estudo realizado por Justin Feinstein, da Universidade de Iowa, publicado na Proceedings Of The National Academy Of Sciences, que pode ter implicações importantes para pessoas com a doença de Alzheimer e seus familiares.

Segundo o autor do estudo, muitas vezes, os membros da família e os amigos mais próximos se perguntam se vale a pena fazer uma visita ou um telefonema para uma pessoa próxima com demência, pois o teor da conversa é esquecido rapidamente. O que Feinstein descobriu é que a lembrança da visita é apagada da mente, mas os sentimentos “bons e quentes” provocados pela visita fazem o portador de Alzheimer sentir que vale a pena viver.

Para chegar a tal conclusão, Feinstein e sua equipe estudaram as reações de cinco pacientes neurológicos com danos no hipocampo, uma parte do cérebro crítica para a transferência de memórias de curto prazo para longo prazo.  Danos no hipocampo provocam um tipo de amnésia que é frequentemente um sinal inicial de Alzheimer e pode ser também resultado de um acidente vascular cerebral ou de epilepsia.

Os pacientes foram expostos a clipes de 20 minutos de filmes, intensamente emocionais: alguns felizes, outros tristes. Ao assistirem às cenas, os pacientes demonstraram emoções apropriadas e condizentes com o que estavam vendo, assim, ora havia risos, ora lágrimas. Embora os participantes do estudo logo tivessem esquecido o que tinham visto, as perguntas sobre seus sentimentos revelaram que as emoções provocadas pelos clipes ficaram retidas por muito mais tempo.

Segundo Justin Feinstein, muitas vezes, a negligência afetiva do cuidador e dos familiares pode deixar o paciente triste, frustrado e solitário, mesmo que ele não saiba exatamente o  porquê.  “A pesquisa é uma prova clara de que as razões para tratar os pacientes com Alzheimer com respeito e dignidade vão além da simples moral humana”, afirma o neurologista, Willian Rezende do Carmo, CRM-SP 160.140.

Afetividade faz parte do tratamento

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que as interações sociais regulares reduzem o risco de desenvolvimento de demência. “Esta nova pesquisa sugere que é preciso começar a definir um novo padrão de cuidados para pacientes com distúrbios de memória. O estudo confirma uma observação da nossa prática clínica: indivíduos com demência que vivem em ambientes tranquilos tendem a ter comportamentos menos inadequados e agressivos”, defende o médico.

O neurologista reforça que, embora, muitas vezes, o doente com Alzheimer não reconheça quem o visita, o contato humano é muito importante para ele. “No entanto, como em qualquer tipo de demência, os doentes com Alzheimer apresentam alterações comportamentais, principalmente na interação com outras pessoas. Portanto, é muito importante se preparar para visitar o familiar ou o amigo com Alzheimer, buscando saber mais sobre a doença e informando-se sobre que atitudes tomar durante a visita”, aconselha Willian do Carmo.

A seguir, o neurologista enumera algumas dicas úteis na preparação de uma visita ao doente com Alzheimer. As dicas foram retiradas do  Blog Familiares e Cuidadores de Doentes de Alzheimer, mantido por Alunos de Mestrado em Biomedicina Molecular da Universidade de Aveiro, Portugal:

  • Um aspecto importante é informar-se junto aos familiares e/ou cuidadores  qual o melhor momento do dia para fazer a visita;
  • O modo como você fala com o doente com Alzheimer e a linguagem corporal também são essenciais. Durante a visita, você deve manter-se calmo, evitando elevar o tom de voz, falando lentamente e de forma clara. Se o doente aparentar não compreender bem o que você diz, ao invés de repetir, diga o mesmo, mas com palavras diferentes e frases mais curtas;
  • Evite fazer perguntas ou então faça as que podem ser respondidas com “sim” ou “não”. Se o doente ficar frustrado por não conseguir responder, não insista;
  • Fale normalmente com o doente e nunca como se ele fosse uma criança. Estabeleça contato visual com o doente e chame-o pelo nome, quando quiser chamar a sua atenção;
  • É essencial respeitar o espaço do doente, evitando chegar muito perto deste;
  • Se durante a visita, o doente parecer não o reconhecer, relembre-o quem você é, e, acima de tudo, nunca considere pessoal o fato do doente não o reconhecer, ser indelicado e até mesmo responder com raiva;
  • Não discuta com o doente caso ele se mostre muito confuso. Em vez disso, tente distraí-lo, conduzindo a conversa para outros temas;
  • Tente não usar frases como  “Você se lembra de…”. Ao invés disso, leve consigo objetos – como, por exemplo, fotografias – que possam suscitar memórias no doente e sobre os quais vocês possam falar;
  • Não se preocupe se a conversa com o doente não fizer muito sentido, nem corresponder à verdade;
  • Se o doente começar a ficar muito agitado, despeça-se e termine a visita. Por vezes, estes doentes não toleram mais do que 15 a 20 minutos de visita.
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